Conflitos Familiares e a Restauração do Cosmo, Part I: Moralidade em meio a Opressão e Humildade

Num artigo publicado aqui no site do Center for Hebraic Thought, a Dra. Shira Weiss mostrou como a instrução moral nas narrativas da Bíblia Hebraica pode ser ambígua, ou pelo menos não muito explícita e clara. Eu gostaria de apresentar neste artigo um estudo de caso para a afirmação da Dra. Weiss. Também apresentarei outra característica interessante da instrução moral na Bíblia Hebraica: o movimento do particular para o universal. Para tanto, farei uma exposição ao leitor da história de Abraão, Sara e Agar em Gênesis 16.

Há uma diferença bem marcada entre Gênesis 1-11 e os capítulos seguintes. Enquanto Gênesis 1-11 é caracterizado por narrativas que têm todo o cosmo como pano de fundo, a partir do capítulo 12 há um estreitamento para vermos narrativas do cotidiano de uma família comum, tendo que lidar com suas dificuldades de relacionamento e sobrevivência em seu contexto local. Mesmo assim, o contexto cósmico nunca é perdido. O texto bíblico estabelece uma relação entre a aliança cósmica que Deus faz com Noé e a aliança que Deus faz com a família de Abraão. Em ambos os casos, a aliança é uma resposta de Deus para a violência humana. A violência pré-diluviana é descrita com clareza em Gênesis 6.11, 13. Já a violência pós-diluviana é descrita implicitamente na narrativa da Torre de Babel (Gn 11.1-9). A construção e todo o empreendimento é fundado por Ninrode, uma figura régia, que é identificado como alguém que ganhava poder na terra como um poderoso caçador (Gn 10.8-10). Ele comanda que a construção de Babel seja feita da mesma forma que as construções feitas pelos escravos hebreus no Egito, com tijolos (Gn 11.3; Êx 1.14). As alianças que Deus faz com Noé e Abraão são chamadas de “aliança eterna” (Gn 9.16; 17.7), e ambas são feitas após Deus destruir um ambiente violento, a própria criação e a Torre de Babel. Mais importante, a aliança com Abraão complementa a aliança de Noé.  O compromisso de Deus na aliança feita com Noé é de nunca mais amaldiçoar a terra nem matar todos os seres vivos (Gn 8.21; 9.11). Enquanto isso, o compromisso de Deus em sua aliança com Abraão é uma versão positiva, na qual ele promete abençoar a Abraão e, por meio dele, todas as famílias da terra (Gn 12.1-3). Do particular para o universal. Mas a narrativa bíblica não oferece abstrações; ela apresenta uma imagem concreta de como isso funciona ao descrever uma resolução ambígua para conflitos familiares.

A dinâmica familiar descrita em Gênesis 16 não é somente conflituosa, ela também tem conotações violentas. Como sabe-se bem, Abraão e Sara não tinham filhos e já estavam em idade avançada. Por isso, Sara decide “construir” (אבנה) a família de Abraão por meio de Agar, sua serva egípcia (v. 2). O conflito começa quando Agar, agora com o status de concubina de Abraão (אשׁה, v. 3), engravidou e olhou com desprezo para Sara, sua senhora (v. 4). Sara interpreta essa situação como uma violência contra ela (חמסי), a qual ela coloca sobre Abraão, tornando-o um conflito entre eles, a ser julgado (ישׁפט) por YHWH (v. 5). Assim como o conflito teve origem com Sara colocando sua serva “no seio de Abraão” (v. 5), ele coloca a situação nas “mãos” de Sara (v. 6). O juízo que Sara faz do caso é uma inversão de status por meio da violência. Como Agar se exaltou ao olhar com desprezo para sua senhora, Sara, então, viu com bons olhos oprimir a Agar, fazê-la se curvar (תענה, v. 6). Agar foge da presença de Sara e é encontrada pelo mensageiro de YHWH, que oferece a ela um modo de resolver o conflito: ela deve se curvar debaixo das mãos de Sara (v. 9). Isso não é meramente uma resolução para o conflito, pois o mensageiro de YHWH promete a Agar que sua descendência será grandemente multiplicada (v. 10), porque YHWH ouviu seus “gemidos sofridos” (עניך, v. 11). O texto bíblico não narra o retorno de Agar e o desenrolar da história. A narrativa conclui com o nascimento de Ismael (v. 15) e indica a resolução do conflito. Sabemos que posteriormente outro conflito surgirá entre Ismael e Isaque, o que levará a uma ruptura completa entre as partes dessa família (Gn 21.8-21). Mas isso não acontecerá sem que Deus demonstre novamente seu cuidado com Agar e seu filho, e a confirmação de que Deus estava com o menino (Gn 21.20).

É difícil imaginar como essa família conflituosa, até mesmo violenta e rompida, pode ser a resposta de Deus para um cosmo que, da mesma forma, está num estado de conflito, violência e destruição. No entanto, parece que é exatamente essa característica que dá a essa família a possibilidade de ser o meio de Deus para restaurar o mundo. A verdadeira resposta para entender isso é como o processo de aprendizado para lidar com conflitos numa escala menor, no ambiente familiar local, se torna a base para lidar com conflitos cósmicos, sejam eles políticos, econômicos ou ambientais. A narrativa não oferece uma instrução moral explícita e clara. Isso, na verdade, iria contra o modelo bíblico que se move do local para o universal. A particularidade de cada situação local exige respostas diferentes. Contudo, essa narrativa bíblica nos oferece um princípio moral que deve permear cada proposta de resolução de conflitos familiares de pequena escala ou grandes conflitos cósmicos. Vamos averiguar a narrativa novamente.

Anteriormente não consideramos um traço fundamental da identidade de Agar: ela é egípcia. O texto bíblico enfatiza sua etnia ao chamá-la de “a egípcia” (המצרית, Gn 16.3). Parece que ela valorizava suas raízes egípcias ao dar uma esposa egípcia ao seu filho (Gn 21.21). Na narrativa, essa identidade conecta Gênesis 16 a Gênesis 15.18b-21, em que o Egito é a primeira referência geográfica para estabelecer a terra que Deus promete dar à família de Abraão. Existem alguns indícios de como Abraão e sua família peregrinam por esse território, com pequenas aquisições de propriedade. Mas no caso da narrativa patriarcal, parece que o texto bíblico está mais interessado em como eles devem começar a abençoar todas as famílias da terra. Assim, por que não começar com o Egito, onde a família de Abraão terá que enfrentar um grande conflito posteriormente?

Agar foge como se alguém a estivesse tentando matá-la (confiram esses outros casos em que pessoas fogem por sua vida, Gn 27.43; 35.1; Êx 2.15; 1Sm 19.12, 18). Mas o mensageiro de YHWH diz que ela deve retornar (שׁובי) para essa situação que ameaça sua vida. Quando Agar retorna, ao invés de morrer sob as mãos de Sara, ela acaba participando das bênçãos de Deus, por meio da família de Abraão. Isso fica claro pelo fato de seu filho, Ismael, receber seu nome do próprio Abraão, dando a ele seu status de filho por direito (Gn 16.15). A bênção de Agar é até mesmo parecida com as bênçãos recebidas pelos patriarcas, pois as promessas de YHWH a ela se assemelham às recebidas por eles (Abraão, Gn 12.2; Isaque, Gn 26.4; Jacó, Gn 28.3, 4) — a única mulher em Gênesis com tamanha honra.

A participação da bênção de YHWH por meio da família de Abraão é baseada na participação na aliança de YHWH com eles. Agar é visitada por YHWH de forma similar a suas visitas a Abraão, especialmente em Gênesis 18.1-16, e a Jacó, especialmente em Gênesis 32.22-32. A ocasião especial da visita de YHWH a Agar é estabelecida pelo verbo מצא (“encontrar”, Gn 16.7). Quando esse verbo tem Deus como sujeito e é seguido por um objeto pessoal, não se trata de um encontro frívolo, e sim um favor divino, até mesmo eleição para uma tarefa especial, como o encontro de YHWH com Israel numa terra deserta (Dt 32.10). Agar, como representante do Egito, é abençoada por meio da família de Abraão, e entra num relacionamento especial com YHWH como resultado de sua participação na aliança de YHWH com eles. 

Como isso acontece? O fato de ela conceber um filho de Abraão, uma das bênçãos garantidas por YHWH a Abraão como cumprimento de sua aliança com ele, poderia ser a resposta para essa pergunta. Mas a narrativa aponta para a atitude de Agar, em vez de sua gravidez. Minha sugestão é que a resposta está no uso de palavras derivadas da raiz hebraica ענה, da qual temos o verbo ענה (“opressão”) e o substantivo עני (“pobre”, “afligido”). 

Essa raiz é usada em três diferentes ocorrências na narrativa de Gênesis 16. Ela é usada para descrever como Sara tratou Agar (v. 6), como o mensageiro de YHWH exige que Agar se comporte ao retornar para Sara (v. 9), e como YHWH qualifica a condição de Agar sob Sara (v. 11). Todo o conflito gira em torno da questão de status social na família de Abraão. Uma vez que Agar foi transformada de serva de Sara para concubina de Abraão e engravidou, ela viu uma oportunidade de ganhar um status mais elevado do que Sara. A narrativa trabalha com esse conflito para mostrar como se ganha status na família da aliança. Não é uma questão de auto-engrandecimento, mas de humilhação. O caminho para a participação na aliança de YHWH com a família de Abraão e de sua bênção que dela flui é um caminho de humilhação. Mas aqui entra a ambigüidade de toda a situação.

A narrativa estabelece uma diferença entre o que Sara faz com Agar e aquilo que YHWH quer que Agar faça, ainda que as duas coisas pareçam iguais. O mensageiro de YHWH reconhece que a condição de Agar é de “aflição”, “miséria”, e ele ainda lhe dá uma ordem para “se humilhar” “sob as mãos de Sara” (Gn 16.9). A diferença, porém, é que essa exigência divina não resultará em morte, como parecia ser a intenção de Sara, mas em vida, como deseja YHWH. Apesar de os resultados, morte ou vida, serem completamente opostos, as condições que levam a eles parecem quase indistinguíveis. É por isso que a obediência de Agar ao retornar foi uma grande demonstração de confiança na palavra e na promessa de YHWH. Uma confiança que, até este ponto na narrativa patriarcal, só é comparável a de Abraão ao deixar a casa de seu pai para peregrinar pela terra que YHWH prometeu a ele. No caso de Agar, porém, ela precisou passar por uma experiência de servidão, opressão e exílio para aprender essa lição. O motivo para tanto, parece, é que ela se exaltou para ganhar uma posição na família de Abraão, e na aliança de YHWH. Agar retorna, confiando que YHWH, que ouviu seus “gemidos sofridos” (Gn 16.11), usará sua humilhação como um meio de incluí-la em sua aliança com a família de Abraão e a abençoará de acordo. E ele assim o faz, pois Ismael é reconhecido como filho de Abraão e a Agar é prometida uma grande descendência. 

Em sua impressionante demonstração de confiança em YHWH, ao se humilhar completamente numa situação de vulnerabilidade e risco, Agar se torna um modelo a ser seguido. No primeiro episódio de conflitos familiares na família de Abraão, é Agar quem demonstra o comportamento alinhado com a aliança de YHWH a fim de alcançar resolução. Abraão e Sara também devem aprender que na aliança de YHWH com sua família, não há lugar para auto-engrandecimento como meio de afirmar seu status na família e na aliança. Ao fim da narrativa, Sara não foi capaz de afirmar sua posição na família, com o status de matriarca, com o seu plano de ganhar um filho por meio de Agar. Pelo contrário, o filho concebido por Agar é sempre considerado seu próprio filho com Abraão. Essa é uma grande humilhação para Sara, que planejou tudo para seu próprio benefício. Da mesma forma, Abraão, que ganha o status de patriarca ao engravidar Agar, deve abrir mão desse status para priorizar sua responsabilidade de marido de Sara e cuidar de sua esposa. À luz do contexto e da superioridade da descendência sobre qualquer outra questão familiar, essa é uma grande humilhação para Abraão. Ao fim da narrativa, ainda que implicitamente, Abraão e Sara devem se humilhar para receber Agar de volta como parte de sua família.

Em Gênesis 18, o cumprimento da aliança de YHWH com Abraão para abençoar todas as famílias da terra depende que ele ensine sua descendência a guardar o caminho de YHWH praticando retidão e justiça. Estar em aliança com YHWH é fazer o que é reto e justo. Se considerarmos o conflito familiar entre Abraão, Sara e Agar como exemplo de como isso é vivido, então, temos algumas diretrizes interessantes. Para a bênção de YHWH encontrar o seu caminho por meio da família de Abraão, é necessário que os de fora não entrem na aliança pelo auto-engrandecimento, mas pela humilhação, demonstrando confiança em YHWH de que isso não os matará e sim os dará vida. Já para a família de Abraão, eles também não podem afirmar sua posição na aliança por seu próprio status, a ponto de oprimir aos outros. Aqueles oprimidos pela família de Abraão serão ouvidos por YHWH em sua aflição, e ele exigirá que sua família também se humilhe, para abrir caminho para os de fora, que foram injustiçados e oprimidos, e estão numa situação de vulnerabilidade, entrarem na aliança e serem parte de sua família. É assim que a família da aliança guarda o caminho de YHWH, como fazem o que é reto e justo. Esse é o caminho de YHWH para trazer uma resolução aos conflitos cósmicos, algo que a família da aliança aprende em seus conflitos familiares. 

Mesmo que todas as partes do conflito devam aprender a se humilhar, não há dúvida de que Agar, a estrangeira e forasteira, sofre muito mais. Para alguns, pode parecer que há algum tipo de parcialidade e que mulheres e estrangeiros vulneráveis são abusados em sua condição, e são meramente alvos passivos de injustiça e cuidado. Isso está longe da verdade. Como foi mencionado, Agar demonstra uma confiança exemplar em YHWH, somente comparável à de Abraão, e ela se torna um modelo de justiça a ser seguido pela família de Abraão. O mesmo tipo de dinâmica vai aparecer novamente em Gênesis, na narrativa de Judá e Tamar (Gn 38). Aqui, porém, a história é mais explícita sobre como a família da aliança deve imitar Tamar, a estrangeira afligida, em sua justiça. O contexto apresenta como José, representante de Israel, deve passar por uma experiência de servidão, opressão e exílio para, assim como Agar, aprender que sua posição privilegiada na família da aliança não é garantida pelo auto-engrandecimento, como ele parecia crer com seus sonhos, mas pelo serviço e cuidado para o bem de sua família e de todas as famílias da terra (ver Gn 50.20-21).

Tem mais. A família de Abraão também precisará passar por uma situação semelhante à de Agar, a egípcia. Eles também precisam aprender o caminho de YHWH, mesmo que precisem ser humilhados e oprimidos. O que a família de Abraão fez com uma egípcia retornará para eles. A opressão que Sara infligiu sobre Agar é a mesma condição em que se encontraram os israelitas no Egito (ענה, Êx 1.11). Da mesma forma que YHWH ouve os “gemidos sofridos” de Agar, ele vê a “aflição” dos israelitas no Egito (עני, Êx 3.7). Assim como Agar foge da presença de Sara, os israelitas fogem do Egito (ברח, Êx 14.5). A comparação mostra como a família de Abraão pode refletir o mesmo tipo de comportamento que é tão destrutivo para as intenções que YHWH tem com a aliança para eles, para todas as famílias da terra e para o cosmo. Ao mesmo tempo, mostra que forasteiros, como Agar, a egípcia, podem ensinar à família de Abraão como estar em aliança com YHWH de um modo que faz com sua bênção transborde para todas as famílias da terra. A ambigüidade de tal perspectiva não está somente no fato de ser algo pouco claro, mas porque é um pouco confuso, já que não existe uma divisão clara entre os mocinhos e bandidos. Esse é o motivo, em minha opinião, porque humilhação e sofrimento, debaixo da violência que resulta de uma família e de um cosmo conflituosos, é o caminho de YHWH para resolução, restauração e bênção. Num mundo de injustiça ambígua, por assim dizer, se humilhar é a resposta de YHWH para alcançar a justiça. 

É interessante perceber que o modelo de Agar de retidão e justiça, pela humilhação, como meio de estar na aliança de YHWH com a família de Abraão também tem sua expressão no Novo Testamento. Logo depois do conflito familiar de Gênesis 16, que começa com um plano de auto-engrandecimento de Sara, vem uma promessa dada especificamente para ela na confirmação da aliança: “Eu a abençoarei, ela será mãe de nações, e dela procederão reis de povos” (Gn 17.16). Essa identidade régia da descendência de Sara parece ser a estratégia divina para que a família de Abraão abençoe todas as famílias da terra. Assim, por trás das narrativas patriarcais estão duas perguntas: quem serão esses reis e que tipo de governo eles exercerão? Especialmente nos conflitos dos filhos de Jacó está a pergunta, “quem será o rei dessa família? E, eu sugiro, nos exemplos de Agar e Tamar está o tipo de governo a ser exercido por esses reis. 

De uma perspectiva cristã, não é tão difícil observarmos como os autores do Novo Testamento respondem a essas duas perguntas em sua caracterização teológica da identidade de Jesus. Eu não quero reivindicar nenhum tipo de dependência direta literária ou mesmo teológica, mas parece que o princípio moral por trás da narrativa de Abraão, Sara e Agar, com toda a sua ambigüidade, é bem expressado no Novo Testamento.

Quando lemos o cântico de Zacarias em Lucas 1.68-79, no contexto do nascimento de seu filho João [Batista], encontramos uma descrição da condição de Israel e do que Deus deseja fazer, que pode nos fazer pensar em Agar. Zacarias fala de Deus salvando Israel das mãos de seus inimigos, aqueles que o odeiam (Lc 1.71). Tal salvação vem como resultado de Deus se lembrar de sua santa aliança com Abraão (Lc 1.72-73), com a intenção de libertá-los para servi-lo em santidade e justiça (Lc 1.74-75). E Zacarias imagina seu filho, João, como quem preparará o caminho do Senhor (Lc 1.76). É claro que essas semelhanças se baseiam no fato de que a condição de Agar, como oprimida, vulnerável e exilada, reflete a situação de Israel no Egito.

O que vemos no Novo Testamento em geral, ou ao considerar esse texto específico de Lucas, é que o caminho da justiça de Deus e o modelo para entrar em sua aliança é pela humilhação, tendo a crucificação de Jesus como a expressão mais clara disso. O modelo de Agar se torna ainda mais interessante quando consideramos o esforço do Novo Testamento para falar da entrada de estrangeiros na aliança de Deus com a família de Abraão. Agora, porém, os estrangeiros devem seguir o exemplo de Israel, representado por Jesus, e não o contrário. Estrangeiros, na verdade, devem compartilhar da humilhação de Jesus para entrar em sua aliança e na própria família de Deus, como Paulo diz em Romanos 8.17: “Se somos seus filhos, então somos seus herdeiros e, portanto, co-herdeiros com Cristo. Se de fato participamos de seu sofrimento, participaremos também de sua glória” (NVT). Esse contexto de família, apesar de estar extrapolando a esfera humana em sua conceptualização de uma família divina, também aponta para um contexto cósmico e a justiça de Deus pela humilhação. Logo depois dessa afirmação sobre compartilhar dos sofrimentos de Jesus, Paulo continua para falar da esperança de um cosmo redimido, uma nova criação (Rm 8.18-27). A renovação do cosmo ocorre como o resultado de Deus responder aos “gemidos sofridos” da criação, como os de Agar, e como os “filhos de Deus” também expressam seus “gemidos sofridos”, indicando que compartilham da aflição da criação, que são respondidos pelo Espírito (Rm 8.22-23, 26-27).

Deus tem um propósito e um meio para preservar e restaurar o cosmo em conformidade com a sua justiça. Seja para o antigo Israel, Judaísmo ou Cristianismo, essa justiça vem por uma submissão humilde aos propósitos de Deus e confiante nele, mesmo quando isso pareça ameaçar a nossa própria vida. Para tanto, temos em Agar uma precursora que confiou em Deus, se submeteu aos seus propósitos, exemplificou sua justiça e recebeu dele vida.